Vitima da Crise
30.6.03
  Antes de ir

Pensava eu que no Brasil o significado da palavra seria o mesmo. Tinha a certeza, aliás. Deixei de ter a partir do momento em que me deparei com o Congresso Nacional de Gestão de Pessoas
29.6.03
  Infoexclusão temporária

Não sei se devo dizer que vou de férias, afinal estou desempregado e dizê-lo não fará muito sentido. Quem na realidade vai de férias é a minha namorada e eu vou com ela. Pronto, assim está melhor.
Como ainda não inventaram maneira de actualizar blogues por SMS (ideia por mim patenteada e registada no INPI), durante esse período o Vítima da Crise não poderá acrescentar episódios ao diário. Desta forma, o Vítima vai-se limitar a tostar ao sol de forma a adquirir um tom de pele que o torne (ainda) mais bonito aos olhos das entrevistadoras. Correcção: que o torne menos feio aos olhos das entrevistadoras.
Volto dia 15 muito possívelmente ainda sem emprego. 
  Balanço Semanal

Zero respostas a anúncios de emprego publicados na Internet.
Zero respostas a anúncios de emprego publicados nos jornais.
Zero respostas pendentes como resultado de uma entrevista.
Zero candidaturas de emprego enviadas.


Avaliação da semana: 0/5


Como diria um amigo meu, how low can you get? 
  Intersexualidade

Deparei-me com este anúncio sexualmente ambíguo e fiquei intrigado.



De quem afinal andam à procura? De uma senhora com o comportamento de um camionista, de um homem com voz fininha e trejeitos femininos ou uma de uma verdadeira senhora, do tipo das que são mesmo mulheres? Talvez procurem uma mistura de tudo isto...
Quem disse que ler os classificados é chato? 
27.6.03
  Negativa

A tal resposta pendente que aguardava chegou hoje pelo correio. Vi logo que não eram boas notícias.

"... lamentamos informar que a sua candidatura não foi considerada para o lugar em causa, já que foram encontradas outras candidaturas mais consonantes com o perfil exigido..."

Desde que comecei à procura, já lá vão 6 meses, é só a segunda resposta por escrito que recebo com o resultado da minha entrevista. Prefiro assim do que não dizerem nada ou obrigarem-me a ligar e a gastar dinheiro para saber que perdi outra oportunidade de emprego.
Agora que tomaram "a liberdade" de incluir o meu CV na Base de Dados, posso vir a ser considerado para futuros processos de selecção. Espero bem que sim e que a entrevista que lá fiz não tenha ficado anexada aos meus "dados curriculares" e seja vinculativa da minha personalidade e perfil, porque se aparentemente serviu para me excluir desta oportunidade poderá servir também para me excluir à partida de novas oportunidades.
E pronto, lá se foi outro sonho.

Roger that. Over and out. 
  Colaborar

A mais recente profissão neste país é a de Colaborador. Um certo tipo de empresas anuncia nos jornais que pretendem quem com eles colabore, desde que o seu perfil tenha "formação escolar adequada".



Afinal o que é um Colaborador, como se poderá fazer um descritivo de funções para este profissional? Em termos gerais será um trabalhador não-especializado, um faz-de-tudo, um pau para toda a obra. Em termos específicos será alguém que fará aquilo que lhe mandam fazer, seja o que for.
Será que é possível fazer carreira como Colaborador? A formação escolar adequada é o 9º ano? Ou será o 12º? Curso superior ou 4ª classe? Quem sabe. Quem sabe o que é ser Colaborador.
Em Portugal há a tendência para eufemizar as coisas, ou melhor, as coisinhas. As mulheres da limpeza são técnicas de higiene, as contínuas das escolas são auxiliares da acção educativa, e por aí fora. Agora surgiram os Colaboradores, que para além de ser um eufemismo para tapa-buracos não quer dizer absolutamente nada. 
24.6.03
  Travão à vergonha

Há uns fins de semana atrás, quando saí­a de um bar encontrei na fila que aguardava vez para entrar um ex-colega meu do curso de engenharia. Depois dos cumprimentos habituais nestas situações perguntei-lhe:

- Então, ainda estás a trabalhar na mesma empresa?
- Estou. E tu, também?

Envergonhado, respondi-lhe que sim. Menti, não consegui dizer que estou desempregado. A última vez que o tinha visto tinha sido há uns dois anos; a empresa para a qual ele trabalhava prestava serviços à empresa onde eu trabalhava e encontramo-nos fortuitamente no lobby quando eu fui fumar um cigarro e quando ele chegava para lá executar um serviço. Já nessa altura senti vergonha quando ele me perguntou porque não acabei o curso depois de ter dito que já era engenheiro, quão bem lhe estava a correr o emprego e quão bem o recompensava monetáriamente ter-se formado.

O comum nestas situações, para além da vergonha que senti, foi ter ficado furioso comigo próprio depois destes episódios. Tive sucesso profissional e o insucesso que experimento neste momento é-me alheio. Mesmo sem curso consegui atingir um patamar remuneratório bastante razoável. Obtive o respeito dos meus colegas e dos meus superiores pelo trabalho que desenvolvi. Ainda por cima sempre me senti realizado, gostava de fazer o que fazia. Por isso, não tenho qualquer motivo para me sentir inferior e consequentemente embaraçado sempre que me perguntam sobre o meu trabalho, ou sobre a falta dele.
Daqui em diante Vítima serei, mas com muito orgulho. 
23.6.03
  Oportunidade (De)Pendente

Sobre a oportunidade de trabalho que implicaria a minha migração, telefonei hoje para lá para saber se haviam novidades. Que não há, que espere uma chamada, que se está a criar uma listagem de concorrentes, que não é preciso enviar (ainda) o meu curriculum.
Para quem tinha tanta urgência em contratar, para quem vincava no anúncio e ao telefone que precisavam de quem tivesse disponibilidade imediata, não irem adiantando trabalho contactando desde já quem se candidatou parece-me estranho. Ou estarei apenas impaciente? 
  Balanço Semanal

Zero respostas a anúncios de emprego publicados na Internet
Uma resposta a anúncios de emprego publicados nos jornais.
Uma resposta pendente a uma entrevista.
Uma candidatura de emprego enviada.


Avaliação da semana: 2/5 
20.6.03
  No news is not good news

Não recebi a prometida chamada. Quero acreditar que não me ligaram porque fizeram ponte. Podia ter eu próprio ligado mas quero acreditar que também eu fiz ponte. Assim justifico a mim próprio o meu desleixo. 
  Agradecimento

Obrigado ao Tempestade Cerebral por se referir a este como um excelente exemplo de blog temático. 
  Ânsia transpirada

Na 4ª feira liguei para saber informações sobre a tal empresa que está a recrutar para uma função que me interessou, mas que é longe da minha casa. Como o responsável dos Recursos Humanos não estava disponível, deixei os meus dados e espero hoje durante o dia receber uma chamada sobre o assunto.
Estou muito curioso sobre aquilo que me vão dizer ou perguntar. Ainda não enviei sequer o meu CV, pelo que das poucas coisas que sabem sobre mim é o meu nome, o número de telefone e que tenho disponibilidade imediata.
É a primeira vez que concorro a uma vaga por telefone, pelo que não faço a mínima ideia do que está para vir. Só espero que o calor não me coza o cérebro e que consiga dar uma boa imagem de mim na conversa. A ver vamos. 
18.6.03
  Migração

A necessidade é cada vez mais, já não ponho de parte certos empregos em certos sítios. Emigrar já me passou pela cabeça. Estranhamente, migrar ainda não.
Hoje apareceu uma oportunidade de trabalhar a mais de 300 km de casa. Vou concorrer, mesmo sem pensar seriamente nisso. Se me chamarem e me oferecerem boas condições, então sim, penso nisso. Para já fico chorando o saldo minguante no banco.
 
16.6.03
  Com o pé esquerdo

Não começa bem a semana. Recebo um telefonema nestes termos:

- Estou, Carlos?
- Não, não é esse o meu nome.
- É a Paula!

A Paula, vejam bem. Como se tivesse andado comigo à escola, como se eu já a conhecesse e fossemos muito amigos. A Paula lá confirma com quem está a falar e convida-me para uma entrevista no seguimento de um e-mail que terei enviado para a empresa onde ela trabalha. Explico-lhe que envio vários, pelo que gostaria de saber em concreto qual era a empresa e a função para a qual vou ser entrevistado. Responde que "a empresa não interessa" e que a função "depende, há várias a concurso, seja na área comercial seja na de marketing". Fiquei na mesma. Pergunto-lhe qual a actividade da empresa e a Paula responde que "é variável, esta semana vendem equipamentos didáticos, para a semana podem vender outra coisa completamente diferente".
Desconfiado, marquei a entrevista. Assim que a Paula desligou, telefonei para o 118 para identificar de onde me tinham ligado. A empresa que "não interessa" tem na sua designação as palavras "Artigos para o Lar". Desanimei instantâneamente. É de certeza mais uma daquelas empresas que se dedicam à venda de colchões ortopédicos, aspiradores ou faqueiros.
Já decidi que não vou à entrevista. E decidi também ter mais cuidado para onde envio candidaturas porque não estou para andar a perder o meu tempo com vigarices. 
  Balanço Semanal

Duas respostas a anúncios de emprego publicados na Internet.
Zero respostas a anúncios de emprego publicados nos jornais.
Um currículo preenchido na página de uma empresa.
Uma resposta pendente a uma entrevista.
Uma candidatura de emprego em preparação.


Avaliação da semana: 3/5 
12.6.03
  Praga

Enchem os classificados dos jornais e também já chegaram à  Internet. Prometem trabalho com ganhos astronómicos sem ser necessário sair de casa. Basta dobrar "circulares". Uns são mais comedidos nas promessas, mas todos asseguram um ganho mí­nimo de 4000€ por mês. Estou a falar dos esquemas em pirâmide.
O negócio é muito simples. Contactando uma das muitas pessoas que oferecem esta "oportunidade milioná¡ria", esta ir-lhe-á  pedir que envie no mí­nimo 25€ para receber o Pacote de Instruções. Se decidir fazê-lo, recebe um "pacote" com instruções muito simples: deve colocar mais anúncios nos jornais, em revistas ou na net para aliciar novas pessoas para a actividade, mas agora com os seus próprios contactos. A partir do momento que lhe pedirem a si um Pacote de Instruções enviando 25€ para a sua morada (aconselha-se o uso de um apartado postal), o seu investimento está pago e a partir dai­ é só facturar. Onde é que entram as "circulares", então? As "circulares" são as cartas que deve enviar em resposta ao pedido de informações onde deve indicar o valor a pagar para que a pessoa receba o Pacote de Instruções. Nesta variante dos negócios em pirâmide nem sequer há a transacção de bens ou produtos!

Em termos gerais são de desconfiar todos os anúncios que publicam os valores da remuneração, sobretudo se forem muito elevados. É importante estar informado para não se deixar enlear em desonestidades. Estes habilidosos esquemas aproveitam-se dos incautos e são ilegais.
Cuidado também com o Multi-Level Marketing, o qual apesar de ser legal visto que envolve a venda de produtos, não deixa também de ser mais um negócio em cadeia. Exemplos de empresas de MLM são a Amway e a Herbalife
  Sinal dos tempos

Interessante esta oportunidade. Parabéns à empresa recrutadora por querer prestar um melhor serviço a alguns dos seus clientes. 
10.6.03
  Empregado vs Desempregado

Ao concorrer a um processo de recrutamento, um desempregado está logo à partida a perder em relação a um empregado. Um desempregado é bastante mais vulnerável porque:

- Precisa de trabalhar
- Facilmente cede a pressões para obter um salário menor ou a compromissos sobre condições sobre as quais antes se recusava a trabalhar
- Está muito menos sereno nas entrevistas
- Sabendo da necessidade de impressionar, tende a expor as suas características de forma exacerbada

Um empregado é diferente:

- Tem o conforto de estar a trabalhar
- Tem à-vontade nas entrevistas
- Discorre com naturalidade sobre as suas capacidades
- Encara a oportunidade de forma despreocupada

Para além disto, aos olhos dos recrutadores a palavra "desempregado" tem uma conotação negativa. Tem que se explicar com muita arte porque se está nesta situação, porque há o risco real de podermos ser interpretados como despedidos e não como dispensados. Ser despedido é sê-lo por maus motivos, por mau desempenho da função, por exemplo. Ser dispensado é quando não há vontade ou necessidade da empresa em manter aquele lugar ocupado, por motivos económicos, por exemplo. No meu caso estou ainda mais à vontade porque a empresa onde trabalhava fechou, pelo que não necessito de fazer um grande esforço para explicar o meu desemprego. Mas mesmo assim às vezes noto alguma desconfiança imerecida. Pobres dos que não vêem os seus contratos de trabalho renovados, pois o esforço para explicar que são alheios a esse facto deve ser sobrehumano. Se os consideram como despedidos, é certo que passam a constar do arquivo morto da empresa recrutadora.

Mas primeiro é necessário conseguir a entrevista. Sem deixar de fora informações importantes, tem que se criar um CV sucinto e apelativo. Pessoalmente aposto no aspecto gráfico, já que em relação a texto não consigo baixar das três páginas. Sei que posso estar a perder com isso, mas depois de o reformular inúmeras vezes vi que tinha que ficar sempre qualquer coisa de fora, portanto preferi não o mudar mais.
Enquanto não há entrevista, somos só letras numa folha em papel ou num documento em Word. Acho que um recrutador sente mais confiança em chamar para uma entrevista um empregado do que um desempregado pelos motivos que apontei. A única mais-valia que o desempregado tem em relação a um empregado é a disponibilidade imediata. Mesmo assim, a balança pende sempre para o lado de quem já tem emprego.
Depois de haver entrevista, passamos a ser uma pessoa sobre a qual há um conhecimento muito superficial, insuficiente para haver uma justa colocação do candidato na função a que concorre, já que a interpretação feita do candidato pode não ser a correcta e é, sempre, subjectiva. Julga-se a pessoa pelo aspecto exterior e pelo que diz nessa entrevista. Mais uma vez, o empregado está a ganhar. É um factor de stress elevado um desempregado saber que depende de pormenores para chamar a atenção em entrevista. Torna-se injusto porque o nervosismo do desempregado pode deitar tudo a perder, enquanto que um relaxado empregado mais facilmente articula o seu discurso.
Mas numa coisa um desempregado e um empregado estão em pé de igualdade. Durante a entrevista garantem-lhes que caso não fiquem seleccionados para a fase seguinte da selecção para aquela vaga, serão considerados para novas vagas que venham a aparecer. Quando de facto não passam à fase seguinte, tenho a certeza que, tenha corrido bem ou mal, essa será a única primeira entrevista a que terão direito, pelo que as notas tiradas pelo entrevistador passam a ser vinculativas daí para a frente, por mais incorrectas que possam ser. 
  Falta de respeito

Desde que comecei à procura de trabalho já respondi a quase duas dezenas de anúncios de vagas e enviei perto de quatro dezenas de CVs em candidatura expontânea. Fui chamado a várias entrevistas e em todas me prometeram um contacto posterior para dizer se tinha ou não sido seleccionado. Mas até agora, só uma vez (!) recebi retorno do meu esforço. Uma multinacional de RH foi a única a fazê-lo, talvez por ter uma cultura diferente das empresas nacionais. E fê-lo não só para me dizer que não tinha sido o escolhido, mas também para, sem eu ter de perguntar, me explicar ponto por ponto quais os motivos que impediram a minha escolha, numa prova louvável de transparência que devia servir de exemplo para as outras empresas de RH.
Noto um desprezo claro por parte das empresas recrutadoras em relação aos que lhes respondem aos anúncios. Custaria muito enviar um e-mail a acusar a recepção do CV? Depois de uma entrevista, é assim tão difícil telefonar aos candidatos para esclarecer porque razão não são seleccionados? Eu penso que não, mas esta é a triste realidade. Não há a mínima consideração para com os que, como eu, dispensam ilusões e preferem saber com o que podem contar. 
9.6.03
  Porque não fui à Expoemprego

Realizou-se de dia 6 a dia 8 deste mês a Expoemprego na FIL. Decidi não ir porque não quis repetir uma experiência completamente frustrante que tive. Passo a explicar. No final de Fevereiro já tinha havido uma feira de emprego, a qual decorreu na Estufa Fria. A essa fui, eu e mais uns bons milhares de desempregados (já somos quase meio milhão) na esperança que uma das anunciadas vagas, alguns milhares também, pudesse preenchida por mim. Juntei-me a uma fila enorme que aguardava pela sua vez de entrar. Muita gente, mas ao contrário do que seria de esperar, as pessoas estavam maioritáriamente em silêncio, mesmo que tivessem companhia. Cabisbaixos, derrotados e, pior ainda, desesperados, eram estes os meus colegas de espera. Enquanto dávamos ocasionalmente uns passos tímidos em direcção ao nosso objectivo, envergonhados, sem cruzar os olhares uns com os outros, eu sentia o ridículo de estar vestido de fato e gravata a um Domingo com uma pasta na mão cheia de curricula vitae que imprimi esperançoso que tivessem quem os apreciasse, de preferência positivamente.
De repente começa a ser distribuído gratuitamente um jornal da responsabilidade dos organizadores. Ao lê-lo, vendo-o cheio de publicidade, comecei a desconfiar que isto era apenas para o proveito de quem montou o certame, não para o proveito de quem necessitava de trabalhar. Quando lá entrei pude comprovar isso mesmo ao ver os stands, a feira era (só mais) um negócio em que se lucrava à conta dos desempregados.
Na sua grande maioria, os stands pertenciam a empresas de recursos humanos, fossem de recrutamento ou de outsourcing, as quais se limitavam a convidar as vítimas da crise a preencher formulários com os seus dados em meia dúzia de computadores ligados à Internet na página da respectiva empresa, como podem ver neste exemplo. Havia também a hipótese de esperar indefinidamente lugar a uma mesa onde estavam dossiers, pareceu-me que cheios de folhas com as vagas que cada empresa disponibilizava e para as quais se podia concorrer entregando o CV com a referência anotada. Ou seja, algo que qualquer um podia fazer sem sair de casa, fosse para inserir o CV, fosse para consultar as oportunidades em aberto, fosse para concorrer a uma vaga.
Depois haviam empresas como a Cepsa, que tinha algumas ofertas válidas (mas para as quais não tenho perfil) e as inevitáveis seguradoras. Estas últimas, de há muito tempo para cá que fazem uma busca incessante por comerciais de seguros. Duvido que seja por motivo de crescimento das vendas que as obrigue a ter mais empregados. Acredito mais no pagamento de um parco salário base aos comerciais, salário que só se torna interessante havendo boas comissões de vendas. Ora, se o mercado está saturado e a crise mais recente não ajuda à despesa das famílias, essas comissões nunca aparecem, levando ao rápido abandono da profissão por parte de quem a executa.
Em termos gerais, as ofertas de trabalho existentes na feira de emprego não exigiam grandes qualificações. Algumas nem exigiam qualificações em particular tirando a experiência na função. Não é que eu seja muito qualificado, mas enquanto tiver direito ao subsídio de desemprego recuso-me a aceitar uma função redutora das minhas capacidades que me faça levar para casa nem metade do que anteriormente ganhava. Por isso achei que esta feira não era para mim.
Admito que possa estar a ver uma imagem mais negra deste evento do que terá tido na realidade de outras pessoas. Mesmo pensando assim, não consegui evitar sair de lá completamente derreado, com a sensação de ter sido defraudado e com o mesmo número de CV's que levava na pasta.

Por isto não fui à Expoemprego. Para deprimente já basta o meu dia-a-dia.
 
5.6.03
  São tolos

Não entendo aqueles amigos que me dizem: "quem me dera estar desempregado como tu, a descansar, sem fazer nada". Por mais argumentos que use, não os consigo demover da estupidez que é a sua opinião. Quis saber porquê. Um respondeu-me que assim podia ficar a tratar das filhas, ainda bebés. Outro porque anda sobrecarregado de trabalho, entra cedo e sai tarde, nem ao fim de semana se safa. Outro ainda porque, pura e simplesmente, está farto de trabalhar.
Vamos por partes. Descansar, descansa-se realmente, mas só no primeiro mês. No fim do primeiro mês começa-se a ficar aborrecido, porque a rotina é não haver rotina. Não haver objectivos a cumprir, coisas a fazer, sítios aonde ir, leva uma pessoa a implorar que lhe dêem recados para fazer, como já me aconteceu. E então, quando vamos ver, estamos cansados outra vez, mas agora por não fazer nada.
Tratar das crianças pode até dar uma noção de normalidade, no caso do meu amigo que anseia por estar nas mesmas condições que eu. Mas eu gostava de o ver quando, já farto dos gritos das miúdas, estiver tão inquieto que já não sabe se há de ver televisão, ler um livro, jogar playstation, dar um passeio a pé ou voltar a procurar emprego porque já não aguenta mais estar parado.
Nas empresas de hoje em dia abusa-se um bocado dos funcionários. Na última onde estive chegavam a chamar "funcionários públicos" a todos aqueles que cumpriam o horário de saída, tivessem ou não trabalho para fazer. Há uma pressão latente que obriga a que saia sempre depois da hora, porque sair à hora "dá a ideia de se ser calão", obrigando às vezes que se ande a molengar durante o dia para ter trabalho o tempo todo. Há também o ridículo das reuniões marcadas para o meio-dia, que se prolongam para as 3 ou 4 da tarde, sem intervalo para refeição. Ridículo, porque se houvesse intervalo a reunião podia prosseguir depois sem qualquer problema. Quer dizer, isto se nas empresas se cumprisse o horário de almoço, mas como é sempre esticado... Quando há sobrecarga de trabalho, raramente é diminuída proactivamente pela empresa, porque para a diminuir há que melhor distribuir tarefas ou que contratar mais um empregado. A primeira opção pode significar que certas tarefas serão distribuídas a pessoas nas quais a chefia não tem confiança completa, na segunda opção significa um encargo em vencimentos que as empresas normalmente não estão dispostas a dispender. É fácil perceber qual a opção escolhida. Se se pode ter só um a fazer o trabalho de dois, para quê mudar? Porque, digo eu, estes factores provocam cansaço nos funcionários e em vez da empresa ganhar, só perde com isso porque a produtividade diminui e qualitativamente à também um decrescimo na qualidade do trabalho. Mas o que é certo, e foi o que respondi ao meu amigo, é que dava tudo para andar tão cansado quanto ele.
O que está farto de trabalhar, está porque sempre foi um previlegiado a nível económico. Sem ter feito grande esforço, foi tendo tudo o que queria. Foi a primeira pessoa que conheci com telemóvel, foi o único dos meus amigos a ter um carro novo de presente no dia em que tirou a carta de condução, mora sozinho numa bela casa que os pais lhe ofereceram embora continue a ir a casa dos pais jantar diariamente. O dinheiro que ganha é rapidamente estafado, em copos, viagens, gadgets, etc, para ele não há amanhã porque tem sempre garantido um amanhã suave. E está farto de trabalhar... A este último, pura e simplesmente respondi:
- Vai à merda!

O comum neles todos é não sentirem, como eu sinto, o pavor de de um momento poder estar a "descansar" sem ter um tostão no bolso. Para ir de férias sem ter dinheiro, mais vale não ter férias. 
4.6.03
  Rotina

Pelas horas a que costumo postar podem ter uma ideia das horas a que me deito. Tem sido assim todos os dias, com uma ou outra excepção. Normalmente, esta é a minha rotina:

Das 13:00 às 14:00 - Acordar
Das 14:00 às 15:00 - Almoço
Das 15:00 às 17:00 - Tomar café e ler o Correio da Manhã, Diário de Notícias e passar os olhos pela Bola e Record. Frustração por mais uma vez não haver um anúncio a que possa concorrer
Das 17:00 às 20:00 - Internet, dos blogs aos fóruns, das páginas de recrutamento à pesquisa por empresas com vagas. Ouço música. Hoje é o Odelay do Beck.
Das 20:00 às 21:00 - Telejornal e jantar em simultâneo. Nada como a pedofilia, a Moderna e a Fátima Felgueiras para abrir o apetite.
Das 21:00 às 22:00 - Check up diário aos meus conhecimentos sobre trivialidades vendo o Passo a Palavra
Das 22:00 às 00:00 - Segmento dedicado à namorada
Das 00:00 até ir para a cama - Mais net, jornais, algum programa de TV que tenha gravado e um livro quando há paciência

Tédio. 
  Companheira de crise

A Jen é uma americana no desemprego. Ela descreve-se assim:

"I once was a successful professional with a thriving career. I was considered to be an expert in my field, and I enjoyed all the accolades of a job well done. Better yet, I had a ton of discretionary income! Due to no fault of my own, I was laid off. It's been over a year since I was let go and I've sent out more than 2,000 resumes, and have been on upwards of 50 interviews and yet I am still not working. So instead of employed, empowered, and solvent like in the old days, I'm unemployed, bored, and broke.
And now I'm just really fucking bitter."

Eu não faria uma descrição melhor da nossa situação, my dear Jen. 
  Para um novo emprego é preciso...

... ler os jornais diários com os cadernos de emprego mais preenchidos, ou seja, o Correio da Manhã e o Diário de Notícias. Consultar o caderno de emprego do Expresso aos Sábados. Pesquisar nos portais de emprego (ver links na coluna lateral). Aceder às páginas institucionais das empresas e procurar oportunidades. Enviar currículos expontâneos.
Já fiz de tudo isto. Resultado: 7 entrevistas, 6 respostas negativas, 1 resposta pendente.
Em comparação, todos os meus colegas de departamento que tinham e utilizaram os conhecimentos do Sr. Cunha já estão empregados e nalguns casos com condições melhores do que as que tinham antes. A minha mais recente esperança é os meus ex-colegas se poderem tornar no Sr. Cunha para mim. Pedir é que não vou, sou orgulhoso demais para isso. Por enquanto, pelo menos... 
  O desemprego

Surgiu sem surpresa, era uma possibilidade real e infelizmente confirmou-se. Mas a altura não podia ser pior, o Natal/Ano Novo é a pior altura para procurar emprego porque simplesmente não há ofertas. Para ajudar, chega a "crise" em todo o seu esplendor. Durante o primeiro trimestre não apareceu nem uma única oportunidade de emprego à qual pudesse concorrer, as poucas que haviam não se encaixavam no meu perfil. Na verdade, não é bem assim, há sempre oportunidades de emprego às quais posso concorrer, mas não queria descer de cavalo para burro. Pelo menos para já, pois o subsídio de desemprego tem um prazo limite, mais perto do prazo logo me sujeito à melhor das piores ofertas que encontrar. Espero que apareça alguma coisa entretanto para não ter que chegar a isso, senão tudo aquilo pelo que tenho lutado, pessoal e profissionalmente, pode perder-se sem glória.
Na empresa anterior era efectivo e quando mudei para esta última só o fiz com essa condição. No meio do azar foi a minha sorte, já que todos os colegas que tinham contrato a prazo tiveram direito a uma indemnização bastante menor do que a minha. Essa indemnização vai-se esvaindo lentamente no banco, sugada pelo crédito automóvel que tenho a pagamento. Tento ao máximo evitar tocar-lhe, apesar de já ter tido uma extravagância: fiz uma viagem. Achei que tinha direito, nunca antes tinha feito uma viagem grande e não estou arrependido de ter gasto esse dinheiro. De resto, tenho sido muito controlado.
Sobre os meus colegas, já alguns se viram obrigados por dificuldades financeiras a fazer aquilo de que tenho medo, aceitar trabalhar com muito menores benefícios financeiros e em posições hierarquicamente menos valorizadas.
Depois da desorientação inicial, começo-me a habituar a esta inactividade. Mas já lá vão seis meses que procuro por um novo emprego e o desespero começa a tomar conta de mim. 
  Os empregos

Não podia ter tomado uma melhor decisão. O part-time nunca chegou a sê-lo, pois desde há muito tempo que não me sentia tão interessado, tão entusiasmado e principalmente tão vocacionado fosse para o que fosse. Decidi apostar, se corresse mal só perderia um ano, quis ver no que dava. Juntou-se o útil ao agradável e reconheceram as minhas capacidades para aquelas funções. Nunca me arrependi da minha aposta, embora sinta pena de não ter terminado o curso, por isso esse continua a ser um objectivo meu.
Trabalhei com grande prazer, atingi metas e excedi todas as minhas melhores expectativas. Mudei muito, voltei a ser seguro, a fazer amigos, a ter namoradas, a sentir-me bem. Cheguei até a sentir ambição, tantas eram as certezas nas minhas capacidades.
Foram 18 meses que me moldaram como profissional, mas sobretudo como homem. Foi esta a minha terapia e o melhor é que ainda me pagavam por ela.
Convidado para um novo emprego, com maior responsabilidade e benefícios, aceitei. Se no anterior fui moldado, neste cresci e amadureci profissionalmente e consegui ao mesmo tempo reforçar o meu carácter, que há tão pouco tempo andava completamente destroçado. Com muita dedicação e espírito de sacrifício fui capaz de evoluir continuamente na empresa, sendo recompensado pelo meu entusiasmo.
Estes dois anos foram os melhores da minha vida, profissional e pessoal. Saber-me respeitado pelas chefias e pelos colegas devido ao meu desempenho foi o maior ego-boost que alguma vez poderia ter tido. Foi durante este período que conheci a mulher da minha vida e essa é outra aposta que ainda estou a fazer.
Mas no final desses dois anos, sou convidado para novo emprego. Desta vez correu menos bem, era um risco aceitar o convite, eu sabia-o, mas mesmo assim fiz a aposta e aceitei. A oferta que me fizeram era considerável e eu, achando que estava na altura de assentar e criar raízes, achei que poderia ser aqui que conseguisse as condições para isso. E teria sido, se 10 meses depois a empresa não fechasse, deixando-me até hoje no desemprego a fazer tudo para poupar a indemnização a que tive direito.
Esta foi claramente a minha pior experiência profissional. Ter uma chefia incapacitada, oca, insolente e malcriada não foi ajuda. A inexistência de objectivos provocou-me desorientação. O amadorismo era um empecilho no meu caminho. Enfim, isto continuava indefinidamente. Na realidade só fui previligiado por conhecer alguns colegas que demonstraram ser excelentes profissionais e pessoas. Apesar de tudo tenho que reconhecer que, de entre todas onde já trabalhei, esta era a empresa que melhor cuidava dos seus empregados. Todas as condições para que se fizesse um bom trabalho estavam lá, só não estavam as pessoas certas. E é uma pena, porque se estivessem tenho a certeza de que seria nesta empresa que iria criar as minhas raízes. 
  Os estudos

Perdi 4 anos a tentar tirar um curso de engenharia numa àrea que não tinha sido a minha no secundário, para a qual não tinha vocação, nem motivação nem apoio docente, mas que fora aquela para a qual tinha conseguido média apesar de ter sido um estudante bastante razoável até então. Traído pela tardia afixação da existência de um novo curso naquela Escola Superior, bem mais condizente com a preparação que trazia e com os meus desejos de futuro profissional, não pude escolhê-lo a tempo. Aliás, só soube mesmo que existia aquele curso já durante as praxes. Pior, havia de ter sido o aluno com média mais elevada desse curso. Quem sabe se a minha história não teria sido muito diferente do que foi...
Assim, mantive-me durante muito tempo em desgosto só para não desiludir os meus pais. Não alcancei esse objectivo. Ao invés disso, fui-me enterrando numa depressão profunda, por saber estar a enganá-los, por lhes estar a gastar muito dinheiro de que precisavam para ajudar o meu irmão que estudava numa privada, por não ter o meu próprio dinheiro e independência, por cada vez me sentir mais inseguro, afastando namoradas e amigos e deixando-me seduzir pela dormência do álcool para me sentir feliz e despreocupado por algumas horas que acabavam numa tristeza e desorientação ainda mais violenta. Tive ataques de choro que duravam horas e que surgiam do nada, às vezes quando conduzia, obrigando-me parar o carro na berma da estrada e a ficar ali, a tremer sem frio, a perder a voz por gritar, envergonhado por mim. Nem me faltaram as ideias de suicídio, que só não cometi porque essa seria a maior desilusão de todas as que podia provocar aos meus pais. Coragem tive, oportunidade também, motivos para não o fazer só um. Por isso decidi de uma vez por todas confrontar os meus pais com o meu desejo de desistir do curso e fui até melhor compreendido do que julgava. E foi por ter sido compreendido que me deixei convencer a experimentar um outro curso. Assim fiz, mudei para um curso na área das ciências empresariais, sem qualquer relação com o anterior e mais uma vez sem relação com o secundário. Mesmo assim, gostei do curso e apliquei-me o mais que pude, mas o mal estava feito. Sem motivação, sem paciência para putos de 18 anos que achavam estar numa competição para ver quem chegava primeiro e com os meus pais cada vez em maiores dificuldades financeiras, procurei um balão de oxigénio que pudesse aliviar a carga que eu provocava. Encontrei um part-time e desde então nunca mais voltei a estudar. 
3.6.03
  Porque nasceu

Porque senti necessidade de separar este tema do meu outro blog. Lá continuarei a escrever sobre tudo o que me apeteça, a apresentar a minha humilde opinião sobre os assuntos que achar por bem, a descrever as minhas experiências diárias, a exteriorizar-me. Reservo este blog para falar sobre trabalho, ou mais concretamente, sobre a falta dele. Melhor, gostava também de discutir o tema do desemprego com todos o que o queiram fazer.
Este talvez seja o primeiro blog em português de um desempregado sobre desemprego, não encontrei mais nenhum pesquisando no Google. Mas é o meu desejo mais profundo que ele deixe de fazer sentido e que passe a ser o primeiro blog de um empregado sobre as suas experiências de trabalho. E quanto mais rápido, melhor. 
  Nasceu

Este pretende ser o diário de um desempregado já com 6 meses de experiência. Quero aqui contar como tem sido e como é o meu dia-a-dia na busca por um novo emprego. As esperanças que vou tendo, as respostas negativas que vou levando, os anúncios que vou encontrando, todos estarão aqui presentes.
É minha intenção contar-vos como me sinto e como lido com um quotidiano atípico em oposição ao do da maioria das pessoas. E garanto que não irei chorar a minha condição nem tornar isto num muro das lamentações, embora possa discorrer sobre o desânimo que me causa.
Será um blog para os que sabem como é estar no desemprego e para os que não sabem e que, espero, nunca saibam senão pelo que venha aqui a escrever. 
Diario de um Desempregado

vitimadacrise@softhome.net

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